Há paisagens que descreveriam a minha vida.
Por alguma coisa, alguma magia, algum encanto que não sei explicar. Nem quero.
Porque há coisas que não se devem explicar.
Uma delas é a da saída da ponte, quando venho para casa.
Hoje sinceramente nem olhei para o relógio que fica ao meio do meu carro.
Fiquei a olhar para o sol a pôr-se lá ao fundo.
Infinitamente fundo.
Para trás, um dia cheio.
Nervos, sorrisos, caras feias.
Tudo aquilo que deve ter um dia cheio.
Para os lados, marcos que mudaram a nossa história: a torre de belém, os descobrimentos...
Mudei para a direita para ver melhor.
Toquei com o pé no pedal do meio, e deixei-me ir.
Os apressados iam passando, ansiosos por chegar a casa depois de também terem um dia cheio.
Não censuro.
Mas não aproveitar aquele momento, certamente que devia ser para todos mais importante que chegar a casa uns minutos antes.
Mas percebo o porquê.
Talvez sejam essas pequenas coisas, esses pequenos pormenores que gosto de guardar para mim.
Se eu pudesse, parava o carro ali e esperava que ele se fosse deitar.
Não posso.
Ligo o rádio.
Para ser perfeito, só mesmo uma boa música.
E estavam do outro lado o Tim e o Rui Veloso.
E como eles, eu também quis ser astronauta.
E voar.
Talvez ainda hoje queira.
Por isso, e para partilhar convosco, ouçam a música.
Ouçam e voltem a ouvir.
E pensem o quanto de vocês está aqui. O quanto de nós está naquela letra.
Certamente chegarão à conclusão, que só falta a paisagem e a brisa a bater na cara que escapa por entre o vidro que puxei para baixo.
Também vos faltará a ponte.
Também vos faltará o pôr-do-sol.
Mas não posso meter tudo aqui.
Por isso, deixo o que posso.
Cronicando, indefinidamente, infinitamente...
segunda-feira, 7 de junho de 2010
sexta-feira, 4 de junho de 2010
terça-feira, 1 de junho de 2010
Quotidiano.
Terreiro do paço.
Baixa-Chiado.
Rossio.
Martim Moniz.
Intendente.
Anjos.
Entre entradas e saídas em mais uma estação (e uma agressividade que às vezes tenho dificuldade em perceber), entra mais um velho.
Como tantos e tantos outros que olhamos e tentamos adivinhar a vida: porque estará ali aquela hora da manhã? será que ainda trabalha? Mas... com esta idade? Secalhar vai buscar o neto à casa da filha, para o levar ao infantário e...
Enfim.
Este apresentava-se particularmente sujo, apesar de não aparentar ser mendigo.
Com mais atenção, notava-se que era.
Eu ia sentado, de frente para a entrada, de costas para o "andar" do metro.
Cabeça encostada ao vidro, música nos ouvidos.
Que redoma de plástico, que bolinha actimel é estar sempre a ouvir música: não se pensa, não se ouve o sussurrar das pessoas, e concentro-mo no que estou a ouvir.
Tudo bem.
Eu pessoalmente, ia a ouvir mais uma música daquelas, das minhas, enfim.
Mais uma história em rima, que de tanto ouvir os meus lábios já mexem à medida que vou ouvindo as palavras de quem a conta.
Aparentemente, tudo normal.
Ouve-se uma voz.
Levanto o olhar, baixo a música.
Ouço o que tem a dizer:
"Bom dia, meus senhores e minhas senhoras
sou mendigo há muitos anos,
e é melhor pedir
que roubar ou vender drogas.
Por isso, peço o vosso auxílio.
Obrigado."
Voltei a dar som à minha redoma de plástico, como quem aumenta as defesas com o exterior.
Arroios.
Como quem aparenta aumentar as defesas com o exterior.
Levanto a cabeça, e sem olhar para ele, reparo em todas as outras pessoas.
Forçaram uma conversa com alguém, desviaram o olhar para o outro lado: cobardia.
É sempre mais fácil não ver a realidade.
Ainda para mais quando é tão infeliz.
Sem dúvida que todos pensámos que podia ser um de nós e a clareza da introdução feita, expôs as nossas (dele?) fraquezas.
Pára ao meu lado.
Volto a baixar o som.
A senhora à minha frente, remexe a carteira.
Dá algo.
Olho para ela, forço uma troca de olhares: esboço um sorriso em sinal de apoio, de concordância.
Alameda.
Há coisas que posso ver todos os dias.
Que mesmo assim, me metem a pensar.
Todos os dias.
Baixa-Chiado.
Rossio.
Martim Moniz.
Intendente.
Anjos.
Entre entradas e saídas em mais uma estação (e uma agressividade que às vezes tenho dificuldade em perceber), entra mais um velho.
Como tantos e tantos outros que olhamos e tentamos adivinhar a vida: porque estará ali aquela hora da manhã? será que ainda trabalha? Mas... com esta idade? Secalhar vai buscar o neto à casa da filha, para o levar ao infantário e...
Enfim.
Este apresentava-se particularmente sujo, apesar de não aparentar ser mendigo.
Com mais atenção, notava-se que era.
Eu ia sentado, de frente para a entrada, de costas para o "andar" do metro.
Cabeça encostada ao vidro, música nos ouvidos.
Que redoma de plástico, que bolinha actimel é estar sempre a ouvir música: não se pensa, não se ouve o sussurrar das pessoas, e concentro-mo no que estou a ouvir.
Tudo bem.
Eu pessoalmente, ia a ouvir mais uma música daquelas, das minhas, enfim.
Mais uma história em rima, que de tanto ouvir os meus lábios já mexem à medida que vou ouvindo as palavras de quem a conta.
Aparentemente, tudo normal.
Ouve-se uma voz.
Levanto o olhar, baixo a música.
Ouço o que tem a dizer:
"Bom dia, meus senhores e minhas senhoras
sou mendigo há muitos anos,
e é melhor pedir
que roubar ou vender drogas.
Por isso, peço o vosso auxílio.
Obrigado."
Voltei a dar som à minha redoma de plástico, como quem aumenta as defesas com o exterior.
Arroios.
Como quem aparenta aumentar as defesas com o exterior.
Levanto a cabeça, e sem olhar para ele, reparo em todas as outras pessoas.
Forçaram uma conversa com alguém, desviaram o olhar para o outro lado: cobardia.
É sempre mais fácil não ver a realidade.
Ainda para mais quando é tão infeliz.
Sem dúvida que todos pensámos que podia ser um de nós e a clareza da introdução feita, expôs as nossas (dele?) fraquezas.
Pára ao meu lado.
Volto a baixar o som.
A senhora à minha frente, remexe a carteira.
Dá algo.
Olho para ela, forço uma troca de olhares: esboço um sorriso em sinal de apoio, de concordância.
Alameda.
Há coisas que posso ver todos os dias.
Que mesmo assim, me metem a pensar.
Todos os dias.
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