Cronicando, indefinidamente, infinitamente...

terça-feira, 1 de junho de 2010

Quotidiano.

Terreiro do paço.
Baixa-Chiado.
Rossio.
Martim Moniz.
Intendente.
Anjos.
Entre entradas e saídas em mais uma estação (e uma agressividade que às vezes tenho dificuldade em perceber), entra mais um velho.
Como tantos e tantos outros que olhamos e tentamos adivinhar a vida: porque estará ali aquela hora da manhã? será que ainda trabalha? Mas... com esta idade? Secalhar vai buscar o neto à casa da filha, para o levar ao infantário e...
Enfim.
Este apresentava-se particularmente sujo, apesar de não aparentar ser mendigo.
Com mais atenção, notava-se que era.
Eu ia sentado, de frente para a entrada, de costas para o "andar" do metro.
Cabeça encostada ao vidro, música nos ouvidos.
Que redoma de plástico, que bolinha actimel é estar sempre a ouvir música: não se pensa, não se ouve o sussurrar das pessoas, e concentro-mo no que estou a ouvir.
Tudo bem.
Eu pessoalmente, ia a ouvir mais uma música daquelas, das minhas, enfim.
Mais uma história em rima, que de tanto ouvir os meus lábios já mexem à medida que vou ouvindo as palavras de quem a conta.
Aparentemente, tudo normal.
Ouve-se uma voz.
Levanto o olhar, baixo a música.
Ouço o que tem a dizer:
"Bom dia, meus senhores e minhas senhoras
sou mendigo há muitos anos,
e é melhor pedir
que roubar ou vender drogas.
Por isso, peço o vosso auxílio.
Obrigado."
Voltei a dar som à minha redoma de plástico, como quem aumenta as defesas com o exterior.
Arroios.
Como quem aparenta aumentar as defesas com o exterior.
Levanto a cabeça, e sem olhar para ele, reparo em todas as outras pessoas.
Forçaram uma conversa com alguém, desviaram o olhar para o outro lado: cobardia.
É sempre mais fácil não ver a realidade.
Ainda para mais quando é tão infeliz.
Sem dúvida que todos pensámos que podia ser um de nós e a clareza da introdução feita, expôs as nossas (dele?) fraquezas.
Pára ao meu lado.
Volto a baixar o som.
A senhora à minha frente, remexe a carteira.
Dá algo.
Olho para ela, forço uma troca de olhares: esboço um sorriso em sinal de apoio, de concordância.
Alameda.
Há coisas que posso ver todos os dias.
Que mesmo assim, me metem a pensar.
Todos os dias.

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